Publicado em 4 de abril de 2020
Tenho a impressão de que o Brasil vive um processo psicológico semelhante aos dos profissionais da saúde, segurança pública e assistência social: a dessensibilização.
É óbvio que enquanto sociedade já falhamos na sensibilidade quando ignoramos diariamente pessoas em situação de vulnerabilidade social. Mas até então isso envolvia a vida, e não a morte. Nem 2 semanas atrás e olhávamos assombrados a repercussão das mortes diárias anunciadas na Itália. 400 mortos em 24h era inimaginável, depois 500... 800 meus deuses.
Então os dias foram passando, e as mortes não foram diminuindo. Pelo contrário, agora eram 1000 na Itália, 700 na Espanha, 400 na França. Mas o impacto já não era mais o mesmo.
E isso foi diminuindo também a percepção sobre a necessidade de se prevenir. Afinal, a vida segue todos os dias não importa se ontem morreram 1000 também nos EUA ou no Irã.
Nos acostumamos com essa nova realidade de números altos. Quem dirá 50 ou 70 no Brasil. É troco. Acabaram as correntes de lavar as mãos e o Fica em Casa virou um jargão velho. Acompanhamos os casos porque essa virou a nova rotina.
Começamos a quarentena cedo demais, nós dizemos. Nem morreu ninguém, nem morreram 10. Nem morreram 100. Nem morreram 1000. Estamos perdendo a sensibilidade para perceber o fim da nossa própria existência.
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